# Análise B-02 — Pico dentro dos 1980

## Pergunta

Dentro dos anos 1980 — a década em que o corpus catalogado se concentra —, existe um ano ou uma faixa curta (2 a 3 anos) que responde por parcela desproporcional dos cadernos? A intensidade é lisa ao longo da década ou tem cume?

## Hipótese esperada (antes de rodar)

Picos plausíveis em **1983-1985** (fase de conclusão/aprofundamento de trabalho intelectual — publicações, defesa, projetos institucionais) ou em **1980-1982** (uso intenso de agendas profissionais). O provável é uma faixa curta de 2-3 anos concentrando entre 30% e 45% da década, com o restante distribuído irregularmente.

## Método

1. **Extração de ano canônico** a partir de `datacao_estimada`, mesma heurística de B-01: valores exatos (`1983`) → o próprio ano; intervalos (`1979-1981`, `1987-1988`) → média inteira arredondada para baixo; `pós-1981`, `1983 ou após` → ano-âncora; `1985-06` → 1985; `década de 1980` → 1984 (meio); `final da década de 1970` → 1977. Nenhum registro ficou sem parsear.
2. **Filtro:** cadernos com ano canônico entre 1980 e 1989 (N = 59).
3. **Contagem ano a ano** e cálculo da média da década (5,9 cadernos/ano) para identificar o ano-pico e o desvio relativo (n/média).
4. **Janela deslizante** de 2 e 3 anos, escolha da faixa mais densa.
5. **Cross-tab** com `predominancia` para o ano-pico.
6. **Segregação por origem da datação:** cadernos cujo `tipo_caderno` já traz ano no rótulo ("Agenda 1983", "Agenda NOVA 1980") vs. cadernos cuja datação foi inferida das observações — teste do "viés de datação óbvia".

## Resultado

### Contagem ano a ano (1980-1989)

Base: 59 cadernos com ano canônico dentro da década. Média da década = 5,9/ano.

| Ano | N | % da década | Desvio vs. média |
|---:|---:|---:|---:|
| 1980 | 10 | 16,9% | ×1,69 |
| 1981 | 3 | 5,1% | ×0,51 |
| 1982 | 5 | 8,5% | ×0,85 |
| **1983** | **11** | **18,6%** | **×1,86** |
| 1984 | 8 | 13,6% | ×1,36 |
| 1985 | 5 | 8,5% | ×0,85 |
| 1986 | 5 | 8,5% | ×0,85 |
| 1987 | 7 | 11,9% | ×1,19 |
| 1988 | 5 | 8,5% | ×0,85 |
| 1989 | 0 | 0,0% | ×0,00 |

**Ano-pico: 1983** (11 cadernos, 18,6% da década, quase o dobro da média anual). Em segundo, 1980 (10, 16,9%). Em terceiro, 1984 (8, 13,6%). O ano final da década, 1989, não tem sequer um caderno catalogado com essa datação — vale registrar antes de discutir picos.

### Faixas de 2 anos

| Biênio | N | % da década |
|---|---:|---:|
| **1983-1984** | **19** | **32,2%** |
| 1982-1983 | 16 | 27,1% |
| 1980-1981 | 13 | 22,0% |
| 1984-1985 | 13 | 22,0% |
| 1986-1987 | 12 | 20,3% |
| 1987-1988 | 12 | 20,3% |
| 1985-1986 | 10 | 16,9% |
| 1981-1982 | 8 | 13,6% |
| 1988-1989 | 5 | 8,5% |

### Faixas de 3 anos

| Triênio | N | % da década |
|---|---:|---:|
| **1982-1984** | **24** | **40,7%** |
| **1983-1985** | **24** | **40,7%** |
| 1980-1982 | 18 | 30,5% |
| 1984-1986 | 18 | 30,5% |
| 1981-1983 | 19 | 32,2% |
| 1985-1987 | 17 | 28,8% |
| 1986-1988 | 17 | 28,8% |
| 1987-1989 | 12 | 20,3% |

Os triênios 1982-1984 e 1983-1985 empatam em 24 cadernos cada — 40,7% da década concentrados em três anos. O centro é claramente 1983.

### Predominância dentro do ano-pico

O pico de 1983 é dominado, sem contestação, por `profissional`.

| Ano | Profissional | Misto | Pessoal | Total |
|---:|---:|---:|---:|---:|
| 1980 | 6 | 2 | 2 | 10 |
| 1981 | 2 | 1 | 0 | 3 |
| 1982 | 3 | 1 | 1 | 5 |
| **1983** | **10** | **1** | **0** | **11** |
| 1984 | 7 | 0 | 1 | 8 |
| 1985 | 4 | 1 | 0 | 5 |
| 1986 | 2 | 3 | 0 | 5 |
| 1987 | 4 | 2 | 1 | 7 |
| 1988 | 4 | 0 | 1 | 5 |

Em 1983, **10 de 11 cadernos** vêm classificados como profissional (91%); o único `misto` é uma agenda de telefones (WR-CAD-064). Nenhum caderno de 1983 tem predominância `pessoal`. Na década como um todo, a proporção de profissionais é 71% (42/59): 1983 é ainda mais profissionalizado que a média.

### Cadernos com datação óbvia vs. datação inferida das observações

Este é o teste do "cavalo de Troia" pedido no enunciado: se agendas datadas dominarem o pico, o achado é trivial (rótulo carrega o ano).

Apenas **dois cadernos** em toda a década 1980-89 têm o ano cravado no próprio `tipo_caderno`:

- WR-CAD-002 — "Agenda NOVA 1980" → 1980.
- WR-CAD-009 — "Agenda 1983" → 1983.

Ambos ainda assim têm `datacao_fonte` que apela ao rótulo ou às observações. Excluindo esses dois, o retrato ano a ano fica:

| Ano | N (só datação por observações) |
|---:|---:|
| 1980 | 9 |
| 1981 | 3 |
| 1982 | 5 |
| **1983** | **10** |
| 1984 | 8 |
| 1985 | 5 |
| 1986 | 5 |
| 1987 | 7 |
| 1988 | 5 |
| 1989 | 0 |

**O pico de 1983 sobrevive** — passa de 11 para 10 cadernos, com folga sobre 1984 (8) e 1980 (9). O achado não é artefato de agendas datadas.

Se olharmos, mais genericamente, todos os cadernos cujo `tipo_caderno` começa com "Agenda" (não só os que trazem ano no nome), aparecem 13 na década: 1980 (1), 1982 (2), 1983 (2), 1984 (2), 1985 (1), 1986 (1), 1987 (3), 1988 (1). Elas não se concentram em 1983 — o pico é feito de cadernos A5 e cadernos grandes cuja data foi lida numa página das observações.

### Anatomia do ano-pico (1983)

Os 11 cadernos de 1983:

| Código | Tipo (literal) | Predominância | Fonte da datação |
|---|---|---|---|
| WR-CAD-004 | Bloco de Anotações | profissional | "Ano de 1983" |
| WR-CAD-009 | Agenda 1983 | profissional | "1983" (e rótulo) |
| WR-CAD-021 | caderno A5 | profissional | "11.X.83" |
| WR-CAD-022 | Caderno A5 | profissional | "Primeira página: 03.01.83" |
| WR-CAD-029 | caderno A5 | profissional | "Março/83" |
| WR-CAD-037 | Caderno A5 | profissional | "3/10/1983" |
| WR-CAD-045 | Caderno A5 | profissional | "23/04/83" |
| WR-CAD-064 | Agenda telefones | misto | "1983" |
| WR-CAD-074 | caderno grande | profissional | "Pós-83" |
| WR-CAD-081 | caderno grande | profissional | "Pode ser pós-83" |
| WR-CAD-093 | caderno grande | profissional | "referências ao ano de 1983" |

Cinco cadernos A5, três cadernos grandes, dois com rótulo "Agenda", um bloco. Nenhum caderno pessoal ou reflexivo. Três dos onze (WR-CAD-074, 081, 093) na verdade estão marcados como "pós-83" — 1983 aqui é âncora inferior, o ano real pode ser 1984-85: a heurística os deposita em 1983, o que pode inflar levemente o pico.

## Leitura interpretativa

O acervo catalogado apresenta um **cume claro em 1983** (11 cadernos, 18,6% da década — quase o dobro da média anual) e uma faixa densa 1982-1984 / 1983-1985 (empate em 24 cadernos, 40,7% da década). Nas fichas, esse cume é **massivamente profissional**: 10 dos 11 cadernos de 1983 vêm classificados como profissional; nenhum como pessoal. Isso afina a hipótese central: a intensidade dos 1980 não é uma escrita íntima que explode no meio da década — é, pelo menos como as fichas registram, uma intensidade de escrita profissional que se concentra em torno de 1983 e desce em degraus até 1988.

O pico não é artefato de agendas datadas. Só dois cadernos da década trazem ano no rótulo do tipo (WR-CAD-002, 1980; WR-CAD-009, 1983), e mesmo removendo ambos o cume de 1983 se mantém com 10 cadernos, todos cujo ano foi lido de datas dentro das próprias páginas ("Março/83", "23/04/83", "11.X.83"). A concentração é substantiva.

Contra a hipótese proto-diarística: se 1983 é onde a escrita cotidiana mais aparece no acervo, e essa aparição é praticamente sem pessoal e sem reflexivo, o pico refuta uma leitura simples de "arquivo de si íntimo" e reforça a leitura de "intensidade de trabalho intelectual/profissional". Mas convém lembrar que a `predominancia` atual usa uma regra conservadora (ver [C-01] proposta): cadernos com marcação de `rel_*`, `epist_*` ou `refl_pessoais` esparsas caem em profissional ou misto — não em pessoal. Uma releitura da regra pode redistribuir esses 10 profissionais de 1983.

A três-quatro-anos-de-atraso o pico se apaga: 1985 e 1986 caem para 5 cadernos cada, na média. E, dado curioso, **1989 é vazio**: nenhum caderno recebeu essa datação. O intervalo real da escrita nos 1980, conforme as fichas, é 1980-1988 — como se a década tivesse encerrado antes.

Os três cadernos rotulados como "pós-1983" (WR-CAD-074, 081, 093), depositados em 1983 pela heurística, são o principal cavalo de Troia local: sua inclusão desloca massa para o pico. Se a Renata julgar que "pós-83" significa 1984-1985 muito mais que 1983 estrito, o cume amortece e o triênio 1983-1985 (24 cadernos) ganha peso relativo sobre o ano isolado.

## Limites e cavalos-de-Troia

1. **Base pequena e sem teste inferencial.** Com N = 59 na década, testes de proporção têm poder baixo. Reportou-se descrição relativa (razão n/média, ranking) — não p-valor.
2. **Ambiguidade de "pós-83" e afins.** Três cadernos (WR-CAD-074, 081, 093) foram depositados em 1983 pela regra "ano-âncora". Se a Renata reler as fichas e concluir que "pós-83" é uma pista para 1984-1985, o pico anual desloca-se e amortece.
3. **`predominancia` é regra provisória.** As fichas dizem o que a pesquisadora marcou; a regra de predominância que traduz marcações em rótulo é conservadora e subestima o pessoal (ver ANALISE §2 e C-01). O achado "1983 é 91% profissional" pode se atenuar sob regra alternativa.
4. **Cadernos sem datação (41) não entram.** Como em B-01, o pico é sobre o corpus datado. Se cadernos sem data forem, na verdade, também dos 1980, o retrato mudaria em massa absoluta — mas B-03 é quem enfrenta isso.
5. **Datação vem das observações, não das páginas.** A fonte é sempre a ficha da pesquisadora, com transcrições curtas do que ela viu ("Março/83"). O caderno pode se estender antes e depois dessa data marcada; a atribuição a um ano é o *começo do uso*, não a extensão real.

## Evidência primária

Cadernos-âncora de 1983 (todos com datação por observações): WR-CAD-004 ("Ano de 1983"), WR-CAD-021 ("11.X.83"), WR-CAD-022 ("primeira página 03.01.83"), WR-CAD-037 ("3/10/1983"), WR-CAD-045 ("23/04/83"). O único com data no rótulo: WR-CAD-009 ("Agenda 1983"). Casos "pós-83" que inflam o pico: WR-CAD-074, WR-CAD-081, WR-CAD-093. Para o ano secundário 1980: WR-CAD-002 (Agenda NOVA 1980) e WR-CAD-078 ("10.XI.80"). Para o vale 1981: WR-CAD-028, WR-CAD-073, WR-CAD-086 (apenas três).

## Sugestões de aprofundamento

1. **Reavaliar "pós-83"** com a pesquisadora (WR-CAD-074, 081, 093) — decidir se ficam em 1983 estrito, em 1984-85, ou em um "sem ano preciso mas dentro do pico". Recalcular o cume com a decisão.
2. **Cruzar com C-01** — se a regra de predominância for reajustada, refazer o cross-tab 1983 × predominância; testar se algum dos 10 profissionais migra para misto ou pessoal sob regra mais inclusiva.
3. **Levar o triênio 1983-1985 (24 cadernos, 40,7%) ao capítulo cronológico** — é a faixa mais defensável para "período de maior intensidade" na dissertação; o cume anual isolado é mais frágil pela margem estreita sobre 1980.
4. **Investigar o vale de 1981** (3 cadernos) e o vazio de 1989 (0). Podem ser efeito da datação (anos com poucas pistas nas páginas) ou fatos biográficos — em ambos os casos, é útil para a Renata olhar as fichas dessa vizinhança.
5. **Encaminhar para B-05** — a faixa 1983-1985 é candidata natural a "múltiplos cadernos ativos simultaneamente", teste da hipótese da constelação de suportes.
